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21/02/1962


É muito difícil não poder agradecer alguém tão importante, não poder dizer certas coisas, ter de ficar calada a vida inteira. Muito difícil. Mas a existência da pessoa é tão maior e, com essa força, o egoísmo diminui aos poucos. Aos poucos. Hoje é um dia que merece ser muito celebrado, como várias pessoas fazem agora. Parte dessa celebração é tentar ficar mais perto e deixá-lo mais presente. Assim faz sentido.

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no volume mais alto


Já chegou a se questionar por que gosta de certas coisas? Não coisas como algum tipo de comida. Coisas como música, por exemplo. Eu já. Por que amo tanto a música? Como é que conseguiram criar algo tão incrível, tão poderoso, que me faz repensar todas as minhas escolhas? Por que não segui esse caminho? Acho que esse questionamento, de tentar entender por que música é tão importante, é mais frequente quando escuto algumas bandas que têm aparecido nos últimos anos. Passam a impressão de que falta música nelas. Não que sejam ruins, mas será que valem esse amor incondicional? Por que “poderiam ser melhores” é o primeiro pensamento que me vem? Será que a música continuaria com a mesma importância se eu decidisse ouvir só essas bandas, nem que fosse para me testar? Pergunto tudo isso porque quase nenhuma dessas bandas tem meu estilo ideal de música1, mas ouço mesmo assim, talvez por serem divertidas. Acho que pode ter a ver com aquela besteira de tentarem dividir literatura entre quem lê por diversão e quem lê por… o que era mesmo? Na minha idéia de literatura, isso não existe. Existe literatura e existem os indivíduos leitores. O mesmo acontece com a música, só que, de vez em quando, me pego nessa divisão. É o que faço agora, aliás. Quando essas dúvidas todas voltam, parece que eu tento colocar a música que realmente amo no patamar mais alto para não deixar com que as bandas que, no fundo, não significam Música para mim não consigam afetar o que sinto. É ridículo isso, acabar defendendo algo que amo para mim mesma. Deve ser o cúmulo da paranóia ou um indício de esquizofrenia. Mas a verdade é que muito amor assusta até quem sente. Não é ruim e não deixa de ser puro, apenas assusta.

Então posso dizer que estou assustada agora. Vi o documentário It might get loud, dirigido pelo Davis Guggenheim, sobre a carreira de três guitarristas: Jimmy PageJack White e The Edge (sendo os dois primeiros meus guitarristas vivos preferidos). É bem o tipo de documentário que gosto: conta a história dos três sem deixar de ser criativo. Contar a história de alguém vivo, ainda mais quando você pode ter contato com a pessoa, é até simples. Mas precisa ser criativo para fazer algo realmente bom, e esse documentário é sensacional. Apesar de ter o Jimmy Page ali (amém), os três tiveram o mesmo tipo de atenção, a história dos três foi considerada com o mesmo grau de importância. Se bem que, na minha opinião e sem querer ofender nem os fãs do U2 nem a banda, The Edge não é um guitarrista bom o suficiente para dividir uma sala com Page White2. Quando eu era criança, tive minha fase de U2, tinha os vinis até, ouvi muito. Mas fui crescendo e a banda simplesmente se tornou chata para mim. Respeito, admiro e reconheço que não é qualquer um que faz isto, só que não suporto mais ouvir cinco músicas seguidas. Os discos antigos são ótimos, mas hoje em dia parece tudo a mesma coisa: as mesmas batidas, os mesmos falsos truques do Bono, o mesmo baixo muito ruim e o The Edge tocando meia dúzia de acordes que aqueles milhões de pedais fazem parecer que ele sabe tocar muito3. Desconfio muito de um músico que precisa de tanto auxílio da tecnologia para conseguir o som que ele quer do seu instrumento. São tantos pedais, tanta coisa, que ele precisa de um técnico o tempo todo ali, apertando botões. E não é porque gosto do Jack, mas o que ele disse4 faz muito sentido para mim. Não consigo confiar na música de alguém que se atenta muito mais à tecnologia do que ao instrumento que está debaixo do seu nariz, é só pegar e aprender a tocar. E durante o documentário todo se percebe o quanto ele se sente inseguro perto dos dois, apesar de ser um cara confiante. Um membro do U2 não pode deixar a tal da peteca cair, senão ele perde o clichê. Pelo menos ele contou umas histórias muito boas, valem muito mais do que o som que ele faz.

Na verdade, o documentário é sobre a guitarra, como eles aprenderam a tocar e o que significa esse instrumento na vida de cada um. Com Jack White, tudo começou com a bateria5 porque, como ele disse, todo mundo já tocava guitarra. Engraçado o quanto demorei para gostar dele por nunca ter gostado do White Stripes e ele lá, sendo um grande baterista o tempo todo. Dá uma certa tristeza pensar que ele poderia ter continuado só nessa banda e eu aqui, nessa ignorância toda, sem conhecer um grande músico. Sei que o WS tem músicas boas, alguns bons arranjos, mas é como sempre digo: aquela Meg é uma ofensa aos bateristas e sou incapaz de ouvir música com bateria ruim. Aliás, falando nela, sempre achei que fosse ex-mulher do Jack, mas no documentário ele diz que são irmãos. Alguém sabe se são mesmo? Só por curiosidade6. Já falei muito dele aqui, postei alguns vídeos do Raconteurs7 e acho que, desde quando comecei a gostar dele, sempre consegui entendê-lo como um músico que sabe que música de verdade não estagna. Acho incrível ele se envolver em tantos projetos e se dedicar a eles como se fosse sua primeira banda, com essa intensidade toda. Não é só um projeto que nasce e fica por isso mesmo, é uma criação contínua. Tem banda que se prende ao próprio estilo, às letras, às músicas que mais fizeram sucesso. Jack só quer fazer música, tanta música dentro dele, só quer criar e dizer algo. Isso fica muito claro numa das melhores partes do documentário, quando ele mostra qual é sua música preferida: Grinnin’ in your face, do Son House, de quem nunca ouvi falar. A música é só voz e ele batendo palma um pouco fora de ritmo. E o Jack diz que significou tudo sobre rock ‘n’ roll, tudo sobre expressão, criatividade e arte. “One man against the world… in one song”, ele diz. Acho que diz muito sobre ele, sobre como ele vive a música. O documentário começa com o Jack construindo um instrumento de corda com madeiras e garrafas e, quando termina de tocar, pergunta: “Quem disse que precisa comprar uma guitarra?”. Não sei se fica bem a palavra, mas não consigo dizer de outro jeito: ele sabe usar a música. Acho que quem tem o pé atrás com ele deveria ver esse documentário. Não funcionou para mim com o Edge (acho que sou fraca), mas pode funcionar com o Jack. Impossível olhar para ele e não ver música por todos os lados.

Enquanto Jack criou várias músicas durante o documentário, The Edge só sabia tocar as mesmas coisas de sempre. E então alguém me pergunta: e o Jimmy Page, tocou o quê? As mesmas músicas de sempre também. Mas tem uma diferença que ultrapassa meu amor pelo Page e meu desgosto pelo Edge. Enquanto o guitarrista do U2 ficava preso naquelas notinhas que, com um eco ou outro, dá para enganar muita gente, Jimmy pegava Whole lotta love ou Kashmir e transformava numa música que não existia, tocando do mesmo jeito que sempre tocou. É a forma como ele toca, o quanto dele está na música. Nem parece que foi feita há tantos anos, parece que fazia a música naquele instante. Por isso, a sensação de quando o Jack e o Edge tocam Kashmir, por exemplo, com o Jimmy é como se eles estivessem numa jam session, criando a música mais genial dos últimos 30, 40 anos. É o que eu disse sobre o Jack: a criação contínua. Para mim, isso é puro Led Zeppelin, puro Jimmy Page. É o que admiro num músico, o que faz alguém ser um Músico. Convencer uma pessoa que gosta muito mais de bateria a considerar a guitarra o único instrumento do mundo, mesmo que só por uma hora e meia. E Jimmy Page é uma banda inteira8. Diferente de dar uma chance ao Jack White como admirador de música, seria uma boa para quem quer ser/já é músico conhecer a história do Page. Nessa idade em que os meninos visitam lojas de instrumentos para pegar numa guitarra que eles dificilmente vão conseguir um dia e tocar Stairway to heaven, ele já tocava em bandas e quase não parava de fazer shows. Até ele cansar de tocar música dos outros. Depois de um tempo na faculdade de Artes, entendendo o que criar significa para ele, veio o Led Zeppelin. É meio difícil falar sobre ele. O cara toca guitarra só de pé para honrar o instrumento. Ele não disse isso, eu que estou dizendo porque parece o óbvio. Vendo o documentário, não conseguia parar de me surpreender com a capacidade que ele tem de falar tão bem com a guitarra, a alma toda ali. Não tem como não se emocionar, chorei mesmo em várias partes. Como evitar? É Música, o meu grande amor. Essa força vai assustar sempre, por mais que eu saiba da imensidão que tem. Mas nunca me traz dúvidas por ser verdadeiro. Só cria, desde questionamentos sobre minhas escolhas na vida a movimentos bizarros com os pés para acompanhar o ritmo, só cria.

Música de verdade faz em mim o mesmo que o Jimmy Page fez no Jack White quando tocou o riff de Whole lotta loveJack, que é um cara que sempre se mantém sério, que sempre parece levar sua história toda em cada nota que toca, quase como um escudo — necessário para não deixar que muita coisa afete seu trabalho e sua vida pessoal —, desabou ao ver Jimmy na sua frente tocando uma música genial. Ele baixou todas as guardas, deixou seu mecanismo de defesa em stand-by e simplesmente ficou ali, vendo, babando e compartilhando com o provável um de seus ídolos aquilo que o fez chegar onde está e que deu aos dois a inteligência para evoluir nesse caminho: o amor pela música no volume mais alto.

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  1. E por ideal entende-se um estilo que, entre os tantos que me agradam, me faria melhor ouvir com mais frequência. []
  2. Mas acho que a intenção do diretor era diversificar. Apesar de Page ser claramente uma influência para o Jack, eles têm estilos bem diferentes. []
  3. Ele mesmo entrega o jogo: “você ouve isso, mas na verdade eu toco isso” (= quase nada). []
  4. “I am suspicious of technology. I only record on reel-to-reel tape. I appreciate moving parts. With digital, nothing is moving, so it’s like everything is dead. It used to be that every band recorded with the same equipment, so if they sounded different, it was a different style — they came at it from a different angle. Today, if you see a beautiful photograph, the first thing that comes into your head is: Is it Photoshop? It’s the same thing as listening to a band and thinking — they were just using Pro Tools. To me, those are the toys that are destroying the music business because it destroys a musician’s devotion to his craft.” []
  5. É o que ele toca agora no Dead Weather. []
  6. Devem ser, ele tem nove irmãos e, pelo que entendi, quase todos são músicos. []
  7. Para mim, a melhor banda de rock desde Led Zeppelin. []
  8. Menos um vocalista. “I can’t sing”, ele diz. []


the nonbelonger’s face


DFW

I see the faces of those who belong and those who do not belong. The belonging faces appear in rows, like belts of coins. The coins bob up and down, because belongers swagger. The belonging faces are tiringly complex, the expression of each created and propped up, through processes obscure, by the faces on either side of it. These structures interwine and mesh, have not yet begun to tear at one another. And the nonbelongers. Of course the faces of those who do not belong are the adjustable dark-eyed faces of Vance Vigorous. Many of these faces are tilted downward, for fear of tripping on a root, for fear of being seen tripping on a root. These are the ones who do not sleep, sleep badly, sleep alone, and think of other things when they hear the sounds through the walls of their rooms. I intuit that the Frisbee players, whom I continue to watch, are nonbelongers. The Frisbee traces faint lines between them, strands that are swept and snapped like spidersilk by the wind off the Memorial Hill and athletic fields to the south. The nonbelongers’ faces are the unfirm faces that are really firm, the self-defined faces, the faces defined by not belonging in a place defined by belonging. These alone are the faces that stare out, protected and imprisoned, from behind the barbed borders of their own structures, the faces that know that, but for the grace of a God distinguished for the arbitrariness of his grace, it is they who would be bound and muffled in the College closets. The faces that are unreachable from this far away, and that look through you and digest you in a moment, against everyone’s will.

David Foster Wallace em The broom of the system.

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correção de/sobre lobo antunes


Depois da Flip, quase toda semana vejo alguém mencionar um comentário que o Lobo Antunes fez. Acho que alguém entendeu errado, não sei se eu ou quem fala sobre o tal comentário. O Humberto Werneck perguntou se o português lê algum autor brasileiro contemporâneo e ele respondeu que não lê porque tem vontade de corrigir os livros. Ele não quis dizer que quer corrigir todos os livros que lê. Não sei se tem essa parte do debate no YouTube, mas o que lembro é isso.

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planos para o blog


Escrever mais. Usar o plugin de footnotes porque percebi que ele é realmente útil, mesmo quando o post é inútil. Publicar os textos que demoro para escrever, inclusive os que acho bobos. Escrever pelo menos um post sobre a série Mad Men. Falar mais das minhas leituras.

Ou não.

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