literatura matinal
Essa leitura inicial nas mesas da Flip, confesso, me incomoda um pouco. Muito tempo é perdido, pois as mesas não chegam a ter nem uma hora e meia. Mas o primeiro debate de hoje, entre o Pepetela e a Chimamanda Ngozi Adichie com mediação de José Eduardo Agualusa, teve duas leituras sensacionais. Aliás, por enquanto, é o melhor da festa porque foi o único (pelo menos dos que vi) realmente literário. Sei que perdi outras duas mesas que me parecem ter sido boas, mas esse foi um debate excelente e relevante do começo ao fim. Gostei muito mesmo e me interessei bastante pela literatura da Chimamanda.
Ontem a mesa com o David Sedaris também foi muito boa (e engraçada, óbvio). A história sobre ter parado de fumar no Japão foi hilária (lá é proibido fumar na rua). Se eu tivesse dinheiro, levaria alguns fumantes para Tóquio — parece que funciona.
clareza
Rá, um brinde aos xeretas. E viva a Speedy-pane. Viva!
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Ao longo dos anos, eu fui percebendo também que acaba sendo interessante você precisar ter um trabalho ou ter uma outra fonte de renda. Muita gente diz que isso acontece num sentido até psicológico, pra você não ficar muito, muito neurótico com a literatura — que é sempre uma tendência. Mas no meu caso, hoje em dia, eu acho que o principal fator positivo dessa situação é que a literatura acaba sendo pra mim o espaço que ela tem que ser mesmo, que é o espaço de liberdade.
Michel Laub num debate da Flip. Gosto muito da clareza dele. Citação também postada no blog da Malagueta.
flip & doenças mentais
Um dia inteiro sem internet, um dia de folga. Acho que não sou tão viciada assim, mas o trabalho pára e é estranho.
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Os debates da Flip estão sendo transmitidos por aqui ao vivo. Ontem perdi o do Michel Laub, Adriana Lunardi, Emilio Fraia e Vanessa Barbara, mas há pelo menos este pequeno vídeo e outros no site da Oi.
Agora há pouco teve um com o João Gilberto Noll e a cineasta argentina Lucrecia Martel. Era um debate que eu queria muito ver e valeu a pena. Não deu para saber a reação do público (seria interessante ver), mas eu gostei. Achei um pouco sem graça em alguns momentos, mas gostei. O Noll leu trechos de dois livros seus, sendo um deles o mais recente, chamado Acenos e afagos (Record). Não conhecia a Lucrecia, mas gostei dela e, apesar de alguns tropeços da tradutora, deu para perceber que ela é apaixonada pelas possíveis formas de se contar uma história. Talvez eu publique um post sobre esse debate ou alguma citação dele no blog da Malagueta (que estou tentando atualizar quase diariamente). Também no blog da revista deixei uns links para acompanhar algumas coberturas da Flip.
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Tem gente querendo passar um tempinho seqüestrado. Alguém ensine o caminho, por favor. Cada maluco que aparece. O Vallejo dizer que a Ingrid Betancourt não aparenta estar doente só reforça, pelo menos para mim, aquela vontade doentia que o ser humano tem de ver tragédias, de comprovar tragédias. O povo quer ver a desgraça. O Vallejo, e com certeza muita gente, queria ver a Ingrid completamente despedaçada. Depois que vi umas imagens antigas dela, acho que não estava muito longe de isso acontecer. Mas o povo queria mais e ainda defende as asneiras ditas pelo ex-colombiano (!!). Maluquice.
cqc de fato no congresso
A mensagem que eles passaram com a comemoração foi ótima. Pessoal boa-gente do Congresso entendeu, né? Espero que sim.
Viva! Que façam valer a luta. Acho que essa história toda é um belo exemplo de como as coisas funcionam em nosso amado país. “Proibiu? Então tá, a gente vai ter de fazer um escarcéu aqui até isso acabar.” Por que é só assim que funciona? Pior que nem assim às vezes.
textos & revisão
Sábado, mais um texto meu foi publicado no Diplo, desta vez sobre aquela perseguidora pergunta: “por que escrever?”.
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No mesmo dia, foi publicado no El País um artigo de João Paulo Cuenca sobre (sim, mais fácil copiar) “la responsabilidad social y el posicionamiento moral de los escritores latinoamericanos ante la realidad de sus países y reivindica la libertad de espíritu para la creación.” Bela dica de leitura. E vale deixar um trecho:
Cuando escribo, tan extranjero soy en Madrid como en Río de Janeiro o en París, donde me encuentro ahora. Brasil, país que adoro y detesto a partes iguales, me interesa en la medida de mis curiosidades y de mis mutantes obsesiones. Nada debo a Brasil y nada me debe a mí Brasil, impuestos aparte.
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E a novidade é a seguinte: a Companhia das Letras vai fazer um recall de um livro do Borges, O fazedor, por conter alguns erros. Excelente. Todo livro corre o risco de ser publicado com alguns erros (muitos deles nem serão identificados depois, são os famosos “erros bobos”) e é ótimo que uma editora como a Cia das Letras tenha tomado essa decisão. Agora, o que me assusta é a explicação do editor Luiz Schwarcz publicada na Folha:
De acordo com Schwarcz, os erros foram conseqüência de falhas no processo de revisão feito por meio de computador.
Sim, e agora é aquele momento em que eu devo ficar quieta porque pode prejudicar minha pequena carreira de revisora? Se uma editora do tamanho da Cia das Letras admite ter usado um computador como revisor de um livro do Borges, os únicos revisores não prejudicados na história são os que tiveram seus nomes impressos no livro (deixando claro que os trechos com erros são em espanhol). Aliás, se é para ser assim, por que contratam os revisores? Já pensou se a moda pega? Não falta muito.
Óbvio que os únicos a estranharem e até se indignarem com o fato são meus colegas de profissão. Pablo Vilela, um dos melhores revisores deste país, também publicou um post em seu blog sobre a mesma notícia. Esses dias enviei a ele um texto do New York Times sobre o revisor jornalístico, mas que vale para todos. Um trecho:
Copy editors are being bought out or forced out; they are dying and not being replaced.
(…)
But in that world of the perpetual present tense — post it now, fix it later, update constantly — old-time, persnickety editing may be a luxury in which only a few large news operations will indulge. It will be an artisanal product, like monastery honey and wooden yachts.
Dying and not being replaced. Silenciosamente.
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Update
Melhor ler este meu comentário antes que algumas pessoas saiam falando que eu já sei o que aconteceu. Só para deixar claro que há duas possibilidades para o ocorrido e que uma é um absurdo e a outra é normal, o que faz a explicação do Schwarcz soar bem estranha.
momento twitter
Acho que Mãos de cavalo provocou alguma doença grave nesse povo. Não se perde uma chance sequer de alfinetar até quem gostou-mas-nem-tanto. Que babaquice.
a motivação é a mesma?
A editora inglesa Hamish Hamilton (que é, desde 1986, um selo da Penguin) acaba de lançar algo que eu queria muito que a Malagueta fosse no Brasil: uma revista literária (chamada Five Dials) que faça alguma diferença. Não, não estou dizendo que a Malagueta não faça qualquer diferença. Tenho orgulho do que faço porque sei que, pelo menos para um determinado número de pessoas, é uma publicação importante. Mas por mais que eu tenha sempre novas idéias para a revista e que trabalhe bastante para que tudo seja relevante e prático para todos, nunca é suficiente para receber credibilidade real e sincera do meio literário. Mesmo que a cada edição sejam publicados ótimos textos, às vezes é inevitável pensar que talvez seja muito esforço por pouco retorno. Não que eu faça apenas por um retorno (de qualquer tipo), mas ninguém edita uma revista só porque acha divertido.
Teoricamente, era para tudo dar certo. Respeito e admiração de inúmeros leitores (e interessante como esse número começa a pender para o outro lado do Atlântico) a revista tem e é por isso que eu continuo. Mas não seria ótimo se uma editora grande daqui fizesse o mesmo que a HH? Seria, no caso da Malagueta, se autores conhecidos fossem publicados. É assim que tudo funciona, é preciso ser conhecido, tudo é feito de contatos. As pessoas oferecem ajuda, inclusive financeira. E por mais que isso seja uma iniciativa admirável que me comove muito, o que pode mudar? Os autores continuarão a ser desconhecidos e publicados numa revista editada por outra desconhecida. E os conhecidos e seus amiguinhos continuarão a zombar de tudo isso. Pior que esse tipo de reação também vem de pessoas que convido para participar da revista, mas por que devo me preocupar com tamanha vaidade desse pessoal?
Só que há um porém: não basta ser conhecido, é necessário ser aprovado por algumas panelinhas. Na verdade, se um mesmo escritor é aprovado por duas panelinhas opostas, ele é deixado de lado. E, obviamente, aquele que é aprovado por uma é intensamente recusado por outra — toda essa velha palhaçada. Nessas horas, eu juro que fico aliviada que a Malagueta não seja publicamente aprovada por qualquer membro dessas panelinhas mais (que termo usar para falar na língua deles?) importantes (?). Qual será minha preferência entre fazer meu trabalhinho aqui quieta, publicando textos que realmente valham a pena — de pessoas que querem escrever sobre livros e não provar que leram livros — e ser “reconhecida” por esse mundinho (com o “perdão” da sinceridade) nojentinho?
Não nego minha vontade de que a Malagueta seja um dia levada tão a sério assim. A Five Dials não é simplesmente uma revista literária, é uma revista literária online com distribuição gratuita (em pdf, outra coisa que eu queria fazer) feita por uma editora de enorme importância, a considerar a tradição e os autores que já publicou. Será que alguma editora brasileira se arriscaria num projeto já iniciado para publicar textos de escritores, críticos e resenhistas não tão conhecidos assim? O que realmente vale a pena: continuar de forma independente ou ceder às facilidades de um apoio “de peso” e pelo menos sugerir uma parceria que vá além de logotipos em rodapés de sites?
Para qualquer uma das opções, é preciso ter pelo menos uma coragem filha da p***? Se isso tivesse real importância por aí, provavelmente (mas…).
talvez apenas um
Queria que fosse assim sempre. A pureza, a surpresa, a verdade. O que acontece quando “crescemos” é exatamente o contrário. Quantos Tan Hong Ming serão Tan Hon Ming para sempre? O do vídeo abaixo não deixa muitas dúvidas.
federico ferrari
Quem acompanha a Malagueta sabe que, a partir da oitava edição, passei a publicar como “capa” fotos feitas pelo italiano Federico Ferrari. E isso não é troca de favores ou qualquer coisa do tipo. Eu divulgo porque gosto, simplesmente. Conheço seu trabalho há um bom tempo e, sem dúvida, ele é um dos meus fotógrafos preferidos, ainda mais porque é um grande adepto da fotografia analógica e apaixonado por lomografia e Polaroid (assim como eu).
Aliás, falando nisso, uma pequena nota: a Polaroid anunciou que vai parar de fabricar filmes. Eu ainda (ainda, ainda, ainda) não tenho a minha SX-70, mas está nos meus planos de curto (hum, médio) prazo. No Flickr existe o grupo Save Polaroid. Eles pedem que as pessoas postem ao menos uma foto por dia. A campanha também tem um site no qual são publicadas todas as novidades. É uma iniciativa linda, queria muito ter como participar.
Voltando ao Federico. Ele acaba de ser entrevistado pelo Cezar LZ, um brasileiro que edita uma revista sobre fotografia, pelo que entendi. Parece que cada entrevistado agora ganha uma edição especial. A entrevista ficou bem legal e esse reconhecimento todo que o trabalho do Federico está ganhando me deixa muito feliz. É merecido.
a sneeze & firefox
O Dane Cook, um dos meus comediantes preferidos, fez uma turnê há uns dois anos chamada Vicious circle. Uma das histórias que ele conta cabe muito bem em discussões diárias sobre religião. Eu sou uma pessoa que gosta de discutir. Não no sentido de brigar, como muitas pessoas pensam. Só que religião não dá, perco a vontade rápido porque é um dogma atrás do outro e eu tento há anos me livrar desses dogmas. Não sei o que pode parecer isso, mas evito o máximo que puder essas discussões sem fim e sem nexo. Porque ninguém respeita a crença de ninguém. E me incluo porque, às vezes, em vez de discutir, minha intenção pode se transformar numa tentativa de convencer a pessoa a acreditar no que eu acredito — e, resumindo, isso é estupidez demais e uma perda de tempo absurda (por vários motivos, tanto bons quanto ruins).
Bom, a história do Dane Cook caberia nesse tipo de discussão se mudássemos os personagens. Esse que ele fala é um ateu, mas é só trocar. Vale a pena ver o vídeo inteiro porque é o mais engraçado dele (na minha opinião), mas, óbvio, ele enrola bastante para incluir outras piadas. Pois, no fim, eu queria trocar a bíblia por um livro do Richard Dawkins. It would be very nice. Só vendo o vídeo para entender mesmo. God bless you, Dane Cook.
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Amanhã será o lançamento oficial do Firefox 3. Peço gentilmente que todos ajudem a bater o recorde de downloads. Acho que Brasil é o terceiro país que confirmou maior participação. Mas, mais importante do que isso, façamos da web um mundinho melhor ao usar um navegador de verdade.
